POR UM FIO
A Carta do Chefe Seattle, de 1855, direcionada ao então Presidente dos Estados Unidos, Ulysses Grant, em resposta à pretensão de compra das terras de sua tribo, é universal por seu conteúdo valoroso. Toda ela deveria ser lida como texto sagrado em defesa do meio ambiente e da vida de toda fauna e flora, apelando à capacidade de sabedoria humana: "O que fere a Terra, fere também os filhos da Terra".
Estamos vivendo um período histórico marcado pelos limites da exploração capitalista sobre os recursos naturais da Terra, com o desterro de milhões de miseráveis, além das vítimas da atual Pandemia do Corona Vírus, que fez com que as contradições sociais ficassem ainda mais expostas, principalmente em sociedades em que governos incompetentes e fascistas insistem em medidas completamente descabidas, como é o caso do Brasil.
As pessoas que ainda conseguem manter sua consciência e sanidade mental acesas não podem se abster de fazer a denúncia dos "desmandos", das "mentiras" propagadas e das incompetências em áreas fundamentais como educação, saúde, moradia digna, direito ao trabalho, preservação ambiental entre outras. Continuaremos agindo como animais grosseiros e perigosos para a própria espécie, ou faremos um esforço conjunto para que a vida na polis vença a crueldade das necropolíticas mundiais, como temos visto ao longo de séculos da história humana?
Quando o chefe Seatle afirma: "O homem não tece a teia da vida; é antes um de seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio (...)", não se tratava de uma simples frase de efeito, mas de uma verdade sagrada, compreendida como baliza para a espécie humana que também é parte desta teia, também é natureza. Hoje lutamos contra os racismos estruturais, quase como uma moda também herdada dos grandes impérios - no caso brasileiro, os paradigmas norte-americanos como sonho e modo de vida -, mas para que não fiquemos na superfície ideológica é preciso um comprometimento com a sociedade e consigo próprio. O que realmente importa nesta breve passagem de cada um pela Terra?
Rever hábitos, consumo, relações familiares e de trabalho, cooperar e se associar com as pessoas que já despertaram para uma nova realidade é o mínimo que ainda podemos fazer na esperança de reverter a devastação ambiental e populacional. O índio Seatle já previa o fim do viver e o início do sobreviver, como de fato tem sido a luta de inúmeros povos de todos os recantos de nosso planeta.
Para o filósofo indígena, Ailton Krenak, o atual contexto de Pandemia "... pode ser a obra de uma mãe amorosa que decidiu fazer o filho calar a boca pelo menos por um instante. Não porque não goste dele, mas por querer lhe ensinar alguma coisa. “Filho, silêncio.” A Terra está falando isso para a humanidade. E ela é tão maravilhosa que não dá uma ordem. Ela simplesmente está pedindo: “Silêncio”.
Neste silêncio o que podemos aprender? Quem poderá escutar as mensagens que já estavam inscritas na Carta do chefe Seatle: "O barulho serve apenas para insultar os ouvidos".
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